Caro defensor da Intervenção Militar

Não há dúvidas, o país está um caos. A corrupção, que tantos e de modo absurdamente ingênuo julgavam ser característica de apenas um grupo político se mostrou, como um mínimo de razão já apontava, ser endêmica ao sistema político brasileiro, refém de alianças absurdas e de um clientelismo nem um pouco republicano.

A violência, você sabe, enfim, cresce e assusta a todos nós, assim como a falência nos sistemas de saúde e educação. Nâo há dúvidas, a situação realmente é bastante ruim.

Mas apesar disso, eu me obrigo a perguntar: é sério mesmo que você, homem ou mulher, pleno de racionalidade acredita que a solução é, em pleno século XXI e num país com a projeção internacional do Brasil, uma Intervenção Militar? Acredita realmente que a solução é, eventualmente, matar quem, sob o seu entendimento, é contra o “verde e o amarelo”?

Vejo que você, intervencionista, volta e meia coloca em faixas que “o povo quer uma intervenção militar, já”, mas aí eu me pergunto: oras, se é desejo do povo e pelo povo mudar o atual estado de coisas, não seria mais adequado e verdadeiramente cidadão que este mesmo povo tomasse as ruas e de lá só saísse quando as coisas mudassem, de fato? Por que esse desejo de transferir uma responsabilidade, teoricamente, cidadã aos militares? Não será comodismo?

Mas ok, pode ser medo de que, se formos às ruas, o governo mande, sobre nós, eles, os militares. Eu entendo, afinal, ninguém gostaria de ser morto, torturado ou preso sem causa efetiva.

Veja, caro concidadão, eu entendo a sua indignação. Mas será que entre seus companheiros intervencionistas não mora o desejo – real – de apenas eliminar aqueles que não concordam com sua visão de mundo ou política, enfim, algo bem diferente de lutar por um país justo, igualitário e que ofereça reais oportunidades de crescimento a todos?

Pense nisso, reflita, porque eu te confesso, me recuso a acreditar que você que é adulto, que passou por bancos escolares, que é pai ou mãe, que – não raro – vai a missa ou ao culto e prega o “amor de Deus”, que lembra volta e meia cita “o perdão de cristo até aos bandidos que com ele foram crucificados”, que diz que o mundo precisa de paz, que as pessoas precisam de união, etc, eu me recuso a crer que alguém assim realmente ache que precisamos de intervenção militar.

Me recuso a crer. Afinal, se depois de tudo isso, ainda realmente acharem, no tempo atual, com todo o acesso à informação – e não vale whatsapp, ok? – que a solução é a violência então não há mais o que fazer, pois voltamos realmente à lei da selva, nos tornamos, pois, no sentido pejorativo do termo, selvagens.

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Precisamos falar sobre o Brasil

Talvez nunca precisamos, tanto, falar sobre o Brasil. Meses atrás, um usuário de facebook, aleatório e que não estava em minha lista de amigos, me procurou em privado e antes mesmo de um simples olá perguntou se eu era petista. Respondi que não, pois de fato nunca tive qualquer filiação partidária. No entendimento dele, posts em meu perfil davam a entender isso de alguma forma.

Na conversa perguntei qual a linha política dele, e após responder, citei alguns filósofos que teoricamente estariam em acordo com a ideologia de meu interlocutor. Ele, sem conhecer nenhum, ficou nervoso e saiu. Hoje voltou, e me chamou de socialista, como se isso fosse algum xingamento ou coisa parecida. A questão é que nunca esbocei qualquer declaração sequer próxima de que me identificava com tal ideologia. Isso posto a questão que fica é: que neurose é essa que foi tão bem sedimentada na cabeça de tantos.

É estranho, temiam que a escola doutrinasse, especialmente nós, das humanas, e no entanto, não terá a doutrinação ocorrido justamente no sentido contrário, a ponto de causar quase um estado de histeria coletiva? Termos como “esquerdista” ou “esquerdopata” são profundamente preocupantes de qualquer ponto minimamente razoável.

Notem: há um esforço quase que hercúleo em desacreditar a escola e a universidade, instituições antes vistas como referência na geração e discussão do conhecimento e no lugar delas, o que resta? Redes sociais e fake news, a nova verdade, a nova teoria, a nova escola e academia.

Seja como for, olhem para o Brasil, nosso país. É desesperador!

Não há mais democracia, mas o totalitarismo do indivíduo em que se não pensa como eu, então é meu inimigo e, quiçá, merece morrer. Não há mais liberdade, senão a de concordar com o pensamento de quem nos contesta, talvez a única forma de evitar a agressão verbal e, nos casos mais extremos – e até habituais – física.

Alguns cristãos festejam a morte de um físico como Stephen Hawking pela posição ateísta deste, e não raro pedem pela morte deste e daquele. E olha que o mandamento “não matarás” é bem claro e não deixa qualquer excessão à regra. E quem são os clérigos que ao invés de pregar o perdão, a concórdia e o amor pregam, antes, o ódio e a intolerância?

Sim, precisamos falar do Brasil que, longe de ser uma nação acolhedora, livre e feliz, transformou-se num país sectário, racista, xenofóbico, intolerante, assassino – aliás, mais uma vez: ASSASSINO – e extremista. Não devemos mais nada aos locais mais fechados e mais tirânicos do mundo. Nossa aparência democrática não mais consegue esconder nossa realidade perversa. Mergulhamos no obscurantismo do “eu estou certo, todos os demais errados”.

Uma nação que tem medo do conhecimento, do debate plural de ideias, que estabelece rótulos a este ou aquele indivíduo ou grupo de indivíduos deixou há muito tempo de ser nação pois transformou-se, mesmo, no mais triste arremedo da selvageria, no sentido mais pejorativo deste termo.

Nem sei mais se precisamos falar do Brasil…do jeito que está, talvez não haja mais sequer o que ser dito.

“Não me venha com chorumelas!”

Sim, é óbvio que o sistema previdenciário brasileiro tem problemas e tem sim discrepâncias graves que criam uma bolha deficitária. Acho que realmente a questão de que é necessária uma reforma é quase que ponto pacífico. Porém, reforma para quem? Mais ainda, reforma sobre a aposentadoria de quem?

Num país em que se fala de “super-salários” sem jamais resolver tamanha indecência cidadã, como mexer, com autoridade, na previdência ordinária? Num país em que tantos recebem “aposentadorias especiais”, como querer reformar, antes, aquela do cidadão comum que de especial não tem nada, aliás, é vergonhosa? Numa nação em que A LEI PERMITE que algumas funções acumulem polpudas aposentadorias, como querer mexer no tempo que algum trabalhador comum deverá trabalhar até que se aposente? (E falei que a LEI PERMITE, para que fique claro que, não é porque é legal, que é moral, nem mesmo justo…lei é lei, justiça é justiça e o equilíbrio entre ambos os conceitos é bastante delicado)

Isso posto, podem chamar o Silvio Santos, o Papa, a Rainha da Inglaterra, podem evocar Trump, o que quiserem, porque enquanto os temas que comentei no parágrafo acima não forem resolvidos – E BEM RESOLVIDOS – não venham tentar defender a atual reforma previdenciária que propõe esse governo que, como outros antes, coaduna com privilégios.

Assim, como diria o personagem Pedro Pedreira, vivido pelo falecido Francisco Milani em “A escolinha do Prof. Raimundo”: NÃO ME VENHAM COM CHORUMELAS, senhores Temer, Silvio Santos e toda a tropa, ok?

Alan Carlos Ghedini.

Como nos fizeram odiar…

Considerando a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da URSS em 1991 temos o que consideramos historicamente como o fim da Guerra Fria, a disputa entre os modelos capitalista e socialista representados, respectivamente, por Estados Unidos e União Soviética. Destacado este fato, é fundamental refletir sobre porque nós, brasileiros, ainda seguimos nos digladiando como se ainda estivéssemos na Guerra Fria.

Bem, pensando a História do Brasil é inegável que nunca fomos um país comunista ou coisa que o valha, sempre fomos governados, na ampla maioria de nossa história, por aquilo a que, grosso modo, chamaríamos de direita política. Sem sombra de dúvidas o comunismo nunca fez um sucesso popular no Brasil. Aliás, em diferentes momentos de nossa fase republicana, diga-se de passagem, tal ideologia foi sistematicamente perseguida com o aparelho do Estado.

Mas , você que está lendo este texto, talvez creia que o comunismo havia tomado o país e que éramos quase que a União Soviética na versão tropical. Juro que não me deterei, neste post, em destacar o que de bom ou o que de ruim o modelo soviético trouxe ou deixou de trazer. Em tempo, se quiser algum exemplo histórico do comunismo aplicado, busque, talvez, a Comuna de Paris, em 1871.

Entretanto, e considerando nossa história quase que 100% distante de qualquer coisa próxima a comunismo, então por que desse ódio?

Somos um país que ainda lê muito pouco, e o pior, que quando lê, só o faz em relação àquilo que concorda, o que denota nosso histórico fanatismo em relação a diferentes campos ideológicos. Boa parte da população que tece, sobretudo em redes sociais, comentários de ordem política não lerão esta crítica, e informam-se, não raro, em publicações curtas e reducionistas sobre tudo, publicadas até em aplicativos como whatsapp.

A pós-verdade da rede social substituiu a leitura de textos clássicos, ela tomou o espaço já tradicionalmente parco do bom debate intelectual. Se muitos não se informam nos 140 caracteres do Twitter – há pouco atualizados para um pouco mais – então o fazem nos famosos “textões” do facebook (aliás, publico alguns). Minha dor maior é quando entra em cena o You Tube, com seus vídeos enfáticos, com alguém berrando indignado alguma verdade revelada. E que dor, quando vejo jovens imersos em vídeos pretensamente “cool“, cheio de gírias, mas com argumentações dignas das piores fases do medievo.

O fato, me parece, é que posts, vídeos e mensagens de whatsapp nos tornaram a “Nação do Ódio”. Estamos sempre prontos a vociferar, jamais a debater. Queremos matar a este ou aquele por que, afinal, “nós” sabemos o que é o correto, portadores da verdade que somos. Pergunto quantos, dos que chegaram até este parágrafo – a maior parte parou no meio, por achar que é coisa de coxinha, de petralha ou do que seja – já foram ofendidos em redes sociais ou até já perderam amigos por compartilharem, intelectualmente, pontos de vista?

Ah, e que fique claro, defender matar fulano ou beltrano, ou desejar que este ou aquele grupo não existisse não é ponto de vista, ok? É discurso de ódio, apenas, simples e criminosamente, logo, se você defende esse tipo de pauta, sim, VOCÊ ESTÁ ERRADO! Ponto!

Enfim, por que você quer que o seu vizinho gay/lésbica morra ou queime no inferno? (Religião não prega amor? Amor não deseja queimar e nem matar.) Por quê espera matar a este ou aquele porque é de esquerda ou de direita? (A menos que você seja um dos donos do poder, você pode ter a mesma função de um “boi-de-piranha”). Por que você quer destruir, matar ou excluir? Já pensou sobre isso? Se sim, não quer mais, se não, segue querendo.

Esse é um post sem um fim determinado, mas opto por te deixar com uma pergunta: “por que você ainda insiste em odiar?”

Acolhi o risco de ser odiado por esse post, que não tem outro objetivo a não ser criticar o ódio, afinal, em odiosos tempos, temos que enfrentá-los, afinal.

Alan Carlos Ghedini.

Vamos parar de hipocrisia? Nunca foi contra a corrupção!

Em 2016, quando do Impeachment, Dilma Rousseff amargava 10% de aprovação e, quando faltavam argumentos àqueles favoraveis ao impedimento da presidente, logo se usava tal índice para demonstrar que ela não tinha legitimidade para governar. Michel Temer chegou a ter 3%, sendo considerado o chefe de governo com menor aprovação NO MUNDO. Recentemente ele festejou ter chegado a 6%, ainda 4% abaixo do governo deposto. Segue governando.
 
Estamos em vias do julgamento do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, em Porto Alegre, e manifestações favoráveis e contrárias estão se organizando. As favoráveis, natural, vem sobretudo de setores da militância. Porém os contrários, encabeçados por grupos como MBL e Vem Pra Rua o fazem pelo “combate à corrupção”.
 
Vejam: você é contra pautas de esquerda? Ok, é um direito democrático seu! Você odeia Lula e o que ele representa? Ok, isso também é um direito seu! Você irá as ruas, contra ele, por que você é contra a corrupção? MENTIRA! DESLAVADA MENTIRA!
 
Não vou aqui defender Lula ou quem quer que seja, mas justiça seja feita, o que muitos grupos chamam de luta contra a corrupção, NUNCA foi contra a corrupção. Os que se diziam SEM PARTIDO, na verdade, SEMPRE TIVERAM PARTIDO, apenas era outro, oras. O que tais grupos fazem é, também, enganar, o que conta com o reforço da notável alienação política que temos enquanto povo. Valem-se de nosso maldito salvacionismo e do desespero civil pelo estado de coisas que se apresenta!
 
Eu nada falaria sobre MBL, Vem Pra Rua ou o que quer que seja, se tais movimentos fossem de fato contra toda a corrupção, mas NÃO É! E afirmo isso categoricamente, afinal, para eles, a impressão que dá é que desde o fim do governo Dilma vivemos a Utopia, um verdadeiro país da Cocanha. Não há mais corrupção, não há malas de dinheiro, não há cargos públicos de alto nível sendo ocupados por pessoas implicadas em diferentes escândalos, não há mais carestia de preços – gasolina que o diga (aliás lembra quando reclamava do tomate?) – enfim estamos redimidos, salvos da mácula do desvio institucional, salvos da roubalheira, afinal, é isso que nos indica o silêncio de tantos grupos ao longo de quase dois anos.
 
Então, meus amigos, DEFINITIVAMENTE NÃO É CONTRA A CORRUPÇÃO, nunca foi! Simples assim! Se me chamarem de comunista, petralha, esquerdopata (adoro essa, pessoalmente), tudo bem, apenas sigo tranquilo porque, para mim, a corrupção definitivamente não é de apenas um partido ou de um setor político exclusivo, ela é mesmo ambidestra e está provada, sobretudo, quando dizemos que vamos combatê-la sem jamais, sinceramente, tê-lo feito.
 
Se Lula será ou não condenado, sinceramente, já não é o centro da questão. O centro, contudo é que, de fato, estamos todos condenados pela alienação, pela cegueira civil mas, sobretudo, pela hipocrisia.
Alan Carlos Ghedini.

Puxa vida, gente! É serio mesmo?

O país está entregue a uma Guerra Fria anacrônica, ridícula e quase doentia. Não bastasse isso, o fanatismo nos assola desesperadoramente num número crescente, por exemplo, de agressões às minorias religiosas. Assim, eu pergunto: em que momento da História tal situação terminou bem? EM NENHUMA!
 
É desesperador perceber que vídeos inflamados no You Tube gravados, não raro, por pessoas sem qualquer autoridade de formação, são tomados como as tábuas da lei, e o mais triste, por jovens, jovens! É tanto ódio transbordando, tanta raiva nos afogando que não estamos mais sendo capazes de discernir, de pensar independentemente. E se você se coloca de alguma forma contrário a tamanho absurdo, logo o rotulam, o execram, o agridem verbalmente e, como já vem acontecendo, até fisicamente.
 
Estamos nos entregando ao discurso da intolerância, confundindo-a com “liberdade de expressão”. Nesse ano, 2018, eleições à vista, e muitos votarão não por suas consciências, mas em acordo com o que algum líder político ou religioso mandou. É o novo cabresto. Como cordeiros ao abatedouro, seguimos. Nos informamos em facebook, whatsapp e outros sem nunca termos tocado em alguma obra minimamente confiável, e se lemos, só o fazemos em relação àquilo que apenas endossa o que já defendemos sem que jamais nos desafiemos a ler o contraditório. O fanatismo verdadeiramente virou a causa.
 
Eu estou certo, e você é que está errado! Esse é o pensamento assassino, genocida e quase criminoso que hoje inunda nosso país, em nenhum momento mais se vê a autocrítica, a razoabilidade. Uma arrogância intelectualóide nos cega como nação, um pedantismo tosco, imbecil em todos os níveis inunda nosso bom senso e, como disse, seguimos ao abatedouro.
 
Desculpem pelo “Textão”, mas numa população que mal lê por diferentes razões, o texto nem é tão grande assim, pelo menos não é tão grande quanto o abismo a que estamos nos lançando, atendendo a interesses de lá e de cá que, em nenhum momento são os nossos interesses, de fato, mas apenas os do poder, pura e simplesmente, nem que para isso tenham de nos roubar, nos vilipendiar e nos transformar em carne moída se necessário.
 
É assustador, e às vezes confesso que fico na dúvida se é, sério mesmo, que em pleno século XXI estejamos vivendo tal má sorte de absurdos.

Dia do professor: comemorar o quê?

Ok, hoje é o dia em que, comumente, parabenizamos professores e professoras, mas o que há pra comemorar? Sim, hoje não venho aqui para falar das belezas da profissão, mas sim sobre o que estão fazendo com ela.

Hoje, professores são perseguidos implacavelmente por grupos que se dizem defensores da liberdade mas que, na realidade, transformaram pais e alunos em inquisidores. Sim há profissionais panfletários? Há, porém hoje qualquer tema que não concorde imediatamente com valores pessoais é visto como ameaça. Um espaço democrático como poderia ser a sala de aula, se vê amordaçado pela intolerância, pelo obscurantismo.

Mas antes fosse apenas isso. Quer dar feliz dia dos professores aos seus? Que tal começar por não falar que estudou para uma prova se o fez apenas por uma hora enquanto as demais passou aqui na Internet ou jogando?

Homenageie seus professores não entregando a eles plágio, como se fosse trabalho, não se ocupando de material estranho a aula em curso, não dormindo (Ah mas tem cada aula chata, né? Certamente, mas é muito mais chato e deselegante dormir numa aula ou fazer aquela cara de “estou nem aí”…isso não te faz contra o sistema, te transforma na pior parte dele).

Enfim, no Brasil está complicado ser professor, especialmente quando você repara que qualquer um, de área absolutamente estranha à educação, é autoridade intelectual maior do que as pessoas que corajosamente e apaixonadamente dedicam e dedicaram a vida a docência. Ouvem a todos, absolutamente todos, mas jamais o professor que, afinal, está sempre errado e não sabe de nada.

Desculpem se o texto não tem o teor que esperavam, é que realmente hoje, na atual conjuntura, não há o que ser comemorado. Este deveria ser um dia de luta de todos pela educação, todos mesmo, isso sim, seria um grande Dia do Professor. Mas enquanto isso não acontece, seguimos vendo docentes abandonando a profissão, outros transformando-a em bico por não dar conta de lhes garantir dignidade, e cada vez menos jovens pensando em exercê-la.

Sinceramente pouco me importa que “no Japão, a única pessoa que não se curva ao imperador, seja o professor”, por aqui, Brasil, é o professor aquele que tem de se curvar a tudo, e a todos.

Alan Carlos Ghedini
Professor.

Nos tempos atuais, uma reflexão sobre o ódio e suas implicações

Observando posts nas redes sociais e mesmo em conversas diretas, é claro que vivemos uma época de intensa irradiação de ódio. Antes da Internet, quem odiava guardava tal sentimento, não raro, para si, mas hoje em alguns cliques a disseminação da intolerância se dá em segundos.

Contudo, vamos examinar a situação. Dias atrás comentava em sala que uma pessoa tem de ser absurdamente arrogante para acreditar, em sã consciência, que seu pensamento ecoaria de modo hegemônico em cerca de sete BILHÕES de pessoas no planeta. Enfim, a premissa de que “eu sei o que é certo”, mostra-se tão frágil que tomba logo no primeiro argumento. Por exemplo, se você é cristão e crê que todos devem viver como você julga correto, saiba que dos 7 bilhões de que falei, cerca de 2,1 bilhões professam alguma confissão cristã, ou seja, você está longe de ser maioria, assim como qualquer outra religião.

Logo, por que você julga que todos deveriam pensar como você ou que deveriam ter a sua orientação moral ou política, se não tem qualquer argumento para advogar-se como maioria? Aliás, mesmo se fosse a tal maioria, isso lhe daria direito real de arbitrar quem está correto e quem está errado? Perceba que a polarização é falha, é insólita, e de modo bastante gritante, irracional.

Essa forma de imperativo entre “eu” versus “eles” não contribui, senão, lançar a todos, odiosos, odiados e os que odeiam na mais terrível escuridão do obscurantismo e do totalitarismo, sugestionáveis a toda sorte de tiranos sempre ali, à espreita de sua presa que, incauta, não percebe que no destilar de seu ódio reside a volatilidade de seu pretenso conhecimento político, moral ou religioso. Como dizem, apenas “viva e deixe viver”.

Perdeu-se o tempo do diálogo, perdeu-se a beleza da diferença em favor de bocas espumantes em raiva, de textos, berros e ataques pessoais cada vez mais cruéis e cada vez mais frequentes. Passamos do crescimento de um mundo que poderia ser novo, para o “replay” de um mundo antiquado e senil da bipolaridade, da caça às bruxas, não as que nos sugam nos conchavos do poder, mas das bruxas que, dentro de cada um, sugam nosso melhor e deixam, em seu lugar seres amargurados que não mais conversam, vociferam, não mais ouvem, calam, não mais amam, odeiam.

Resta a esperança que de algum modo possamos acordar desse pesadelo bestial, desse desamor, desse pensamento tão estreito, tão reducionista que a tudo transformou em jogo de bandido e mocinho sem compreender a real complexidade do momento, sem perceber que na ceia do poder não fomos os convidados, mas os empregados. Resta a esperança de acordar dos discursos de ódio, dos discursos de morte, dos gritos de vingança, da violência com que uma simples discussão pode ser conduzida.

E sinceramente, se você defende matar este ou aquele, defende torturar, defende discriminar quem quer que seja, me exclua de tudo, de seus contatos, de suas redes. No mundo prefiro ser pelo amor, jamais pela dor, prefiro, declaro ser por mim e por todos e não por mim, contra todos.

Ninguém é 100% sozinho…afetamos a todos!

A Baleia Azul é um dos animais mais fantásticos. Lembro quando vi um documentário a respeito e fiquei encantado com o fato de que tal criatura, parecendo digna de um conto mitológico, existisse. Uma verdadeira conquista da vida, da evolução.
Curiosamente, uma prova tão inconteste de vida e de grandiosidade da natureza é, hoje, usada como símbolo de crueldade e morte.
Então, minha reflexão é com todos(as), indistintamente, e é um apelo no seguinte sentido: PENSE!
Não creio, realmente, que alguém seja comprovadamente só ou invisível, e até falei isso em sala. Todos somos seres afetivos, que de alguma forma, direta ou indireta, afetamos a existência de tantos outros à nossa volta. Afetividade, no sentido de afetar e mudar, é humana.
Dito isso, o sofrimento é também parte da vida, parte do ser, da mesma forma que a felicidade também o é em seus momentos que, sutis, equilibram a balança da existência. Ninguém é só sofrimento e ninguém é só felicidade. Alternamos entre ambos em diferentes fases da vida, às vezes mais em um e às vezes mais em outro, mas indubitavelmente passamos por ambos.
É fato que muitas vezes parece que tudo conspira contra, parece que realmente tudo tende a dar errado e sim, dará, mas NÃO eternamente. Viver é uma convulsão constante entre alegrias e tristezas, é o caos da imprevisibilidade e por isso, penso, é tão essencial. A aventura da desventura e a surpresa da conquista, ambas coexistindo, flertando segundo após segundo, é vida, apenas e tão valiosamente.
Assim, tenha em mente: se sofre, saiba que não está só! Busque ajuda, busque amigos. Não tema pedir por socorro, não tema buscar algum especialista, não tema lutar para se desvencilhar da dor que te apavora, que te sufoca. Dê um passo à frente não para o abismo, mas antes, para a compreensão de que alguém há de ouvi-lo.
Tal qual uma baleia azul a vida é algo digno de nota, de documentário, é grande, poderosa e imprevisível, e tal qual a baleia, a vida é também caçada e agredida, mas insiste em continuar porque há um oceano inteiro de possibilidades, profundezas e lugares ainda por explorar. Baleia azul não é morte, não é destruição, ela é a prova do quanto a vida se reinventa e do quanto o mundo ainda pode surpreendê-lo. Viver nunca foi tão preciso.
Como se diz por aí: “hashtag ‘fica a dica'”.

Escola sem partido ou sem debate?

Ninguém duvida do grau de atraso de nosso país quando o assunto é maturidade política ou mesmo cidadã. Ninguém duvida, imagino, do quão atrasados estamos, historicamente, para que em sã consciência ainda esperemos algum tipo de “ameaça vermelha”, enfim, que algum bolchevique faça uma barricada na rua de baixo. Há que se destacar também de que não há dúvidas de que somos um povo que não só não lê, mas quando o faz, é de má vontade e de péssima qualidade.

Ler só o que corrobora com sua opinião, ler apenas aquilo que faz coro ao que acredita não é ter senso crítico ou tampouco qualquer lampejo de intelectualidade, é simplesmente e mesmo, agir de modo fanático. Aliás, nem todo fanático usa bombas ou fuzis, alguns apenas vociferam o ódio e perseguem quem deles discorda, simples assim.

Mas por que escrevo hoje? Simples! É pelo fato de que entramos numa era verdadeiramente perigosa, quase um caminho sem volta, onde estamos lentamente nos tornando espiões uns dos outros, e isso NUNCA deu certo, JAMAIS. Na visão do nós contra eles e do eles contra nós estamos matando a criticidade, o bom senso e assassinando uma geração de jovens pensadores que agora se quedam, usados como infantaria dos infames, delatando, gravando e perseguindo.

Fico sempre pensando no tal “Escola sem partido” e me pergunto quem, no completo juízo, acredita que tal escola é sem partido? Ela não é, apenas está se garantindo que, agora, ela tenha um e tão somente um partido que seja, obviamente, alinhado ao setor político e civil que encabeça a dita ideia.

Sou um professor, e me orgulho em dizer que tive e tenho colegas alinhados à direita e à esquerda política, ainda que tais conceitos, no Brasil, estejam cada vez mais esvaziados de sentido, uma vez substituídos pela ignorância bárbara de um povo que opina sobretudo sem jamais ter lido antes uma vírgula sequer, e séria, sobre o assunto a que se dedicam falar. Vivemos a época do “Porque sim!”, a explicação mais sofisticada que você vai ouvir de muita gente, em muitas esquinas, quando indagadas sobre suas posições.

Vejo hoje meus professores, pessoas de quem tive o prazer da convivência e do aprendizado, pessoas que não me diziam o que pensar mas que, antes, ofereciam argumentos críticos e sempre livres para que pudéssemos realizar o próprio debate, serem acuados pela covardia de um projeto que se pretende defensor da liberdade quando é, na realidade, o primeiro elo na enorme corrente de ignorância e obscurantismo em que estão aprisionando a Nação. Meu medo? De que quando acordarmos deste sonho torpe, deste pesadelo tacanho, anacrônico, histriônico ou mesmo disfuncional, seja tarde demais para uma geração de jovens que terão sido entregues ao fanatismo, na crença de que lhes foi entregue um mundo de liberdade quando foram apenas lançados às sombras da pior das cavernas.

É triste, muito triste.

Alan.