Nos tempos atuais, uma reflexão sobre o ódio e suas implicações

Observando posts nas redes sociais e mesmo em conversas diretas, é claro que vivemos uma época de intensa irradiação de ódio. Antes da Internet, quem odiava guardava tal sentimento, não raro, para si, mas hoje em alguns cliques a disseminação da intolerância se dá em segundos.

Contudo, vamos examinar a situação. Dias atrás comentava em sala que uma pessoa tem de ser absurdamente arrogante para acreditar, em sã consciência, que seu pensamento ecoaria de modo hegemônico em cerca de sete BILHÕES de pessoas no planeta. Enfim, a premissa de que “eu sei o que é certo”, mostra-se tão frágil que tomba logo no primeiro argumento. Por exemplo, se você é cristão e crê que todos devem viver como você julga correto, saiba que dos 7 bilhões de que falei, cerca de 2,1 bilhões professam alguma confissão cristã, ou seja, você está longe de ser maioria, assim como qualquer outra religião.

Logo, por que você julga que todos deveriam pensar como você ou que deveriam ter a sua orientação moral ou política, se não tem qualquer argumento para advogar-se como maioria? Aliás, mesmo se fosse a tal maioria, isso lhe daria direito real de arbitrar quem está correto e quem está errado? Perceba que a polarização é falha, é insólita, e de modo bastante gritante, irracional.

Essa forma de imperativo entre “eu” versus “eles” não contribui, senão, lançar a todos, odiosos, odiados e os que odeiam na mais terrível escuridão do obscurantismo e do totalitarismo, sugestionáveis a toda sorte de tiranos sempre ali, à espreita de sua presa que, incauta, não percebe que no destilar de seu ódio reside a volatilidade de seu pretenso conhecimento político, moral ou religioso. Como dizem, apenas “viva e deixe viver”.

Perdeu-se o tempo do diálogo, perdeu-se a beleza da diferença em favor de bocas espumantes em raiva, de textos, berros e ataques pessoais cada vez mais cruéis e cada vez mais frequentes. Passamos do crescimento de um mundo que poderia ser novo, para o “replay” de um mundo antiquado e senil da bipolaridade, da caça às bruxas, não as que nos sugam nos conchavos do poder, mas das bruxas que, dentro de cada um, sugam nosso melhor e deixam, em seu lugar seres amargurados que não mais conversam, vociferam, não mais ouvem, calam, não mais amam, odeiam.

Resta a esperança que de algum modo possamos acordar desse pesadelo bestial, desse desamor, desse pensamento tão estreito, tão reducionista que a tudo transformou em jogo de bandido e mocinho sem compreender a real complexidade do momento, sem perceber que na ceia do poder não fomos os convidados, mas os empregados. Resta a esperança de acordar dos discursos de ódio, dos discursos de morte, dos gritos de vingança, da violência com que uma simples discussão pode ser conduzida.

E sinceramente, se você defende matar este ou aquele, defende torturar, defende discriminar quem quer que seja, me exclua de tudo, de seus contatos, de suas redes. No mundo prefiro ser pelo amor, jamais pela dor, prefiro, declaro ser por mim e por todos e não por mim, contra todos.

Ninguém é 100% sozinho…afetamos a todos!

A Baleia Azul é um dos animais mais fantásticos. Lembro quando vi um documentário a respeito e fiquei encantado com o fato de que tal criatura, parecendo digna de um conto mitológico, existisse. Uma verdadeira conquista da vida, da evolução.
Curiosamente, uma prova tão inconteste de vida e de grandiosidade da natureza é, hoje, usada como símbolo de crueldade e morte.
Então, minha reflexão é com todos(as), indistintamente, e é um apelo no seguinte sentido: PENSE!
Não creio, realmente, que alguém seja comprovadamente só ou invisível, e até falei isso em sala. Todos somos seres afetivos, que de alguma forma, direta ou indireta, afetamos a existência de tantos outros à nossa volta. Afetividade, no sentido de afetar e mudar, é humana.
Dito isso, o sofrimento é também parte da vida, parte do ser, da mesma forma que a felicidade também o é em seus momentos que, sutis, equilibram a balança da existência. Ninguém é só sofrimento e ninguém é só felicidade. Alternamos entre ambos em diferentes fases da vida, às vezes mais em um e às vezes mais em outro, mas indubitavelmente passamos por ambos.
É fato que muitas vezes parece que tudo conspira contra, parece que realmente tudo tende a dar errado e sim, dará, mas NÃO eternamente. Viver é uma convulsão constante entre alegrias e tristezas, é o caos da imprevisibilidade e por isso, penso, é tão essencial. A aventura da desventura e a surpresa da conquista, ambas coexistindo, flertando segundo após segundo, é vida, apenas e tão valiosamente.
Assim, tenha em mente: se sofre, saiba que não está só! Busque ajuda, busque amigos. Não tema pedir por socorro, não tema buscar algum especialista, não tema lutar para se desvencilhar da dor que te apavora, que te sufoca. Dê um passo à frente não para o abismo, mas antes, para a compreensão de que alguém há de ouvi-lo.
Tal qual uma baleia azul a vida é algo digno de nota, de documentário, é grande, poderosa e imprevisível, e tal qual a baleia, a vida é também caçada e agredida, mas insiste em continuar porque há um oceano inteiro de possibilidades, profundezas e lugares ainda por explorar. Baleia azul não é morte, não é destruição, ela é a prova do quanto a vida se reinventa e do quanto o mundo ainda pode surpreendê-lo. Viver nunca foi tão preciso.
Como se diz por aí: “hashtag ‘fica a dica'”.

Escola sem partido ou sem debate?

Ninguém duvida do grau de atraso de nosso país quando o assunto é maturidade política ou mesmo cidadã. Ninguém duvida, imagino, do quão atrasados estamos, historicamente, para que em sã consciência ainda esperemos algum tipo de “ameaça vermelha”, enfim, que algum bolchevique faça uma barricada na rua de baixo. Há que se destacar também de que não há dúvidas de que somos um povo que não só não lê, mas quando o faz, é de má vontade e de péssima qualidade.

Ler só o que corrobora com sua opinião, ler apenas aquilo que faz coro ao que acredita não é ter senso crítico ou tampouco qualquer lampejo de intelectualidade, é simplesmente e mesmo, agir de modo fanático. Aliás, nem todo fanático usa bombas ou fuzis, alguns apenas vociferam o ódio e perseguem quem deles discorda, simples assim.

Mas por que escrevo hoje? Simples! É pelo fato de que entramos numa era verdadeiramente perigosa, quase um caminho sem volta, onde estamos lentamente nos tornando espiões uns dos outros, e isso NUNCA deu certo, JAMAIS. Na visão do nós contra eles e do eles contra nós estamos matando a criticidade, o bom senso e assassinando uma geração de jovens pensadores que agora se quedam, usados como infantaria dos infames, delatando, gravando e perseguindo.

Fico sempre pensando no tal “Escola sem partido” e me pergunto quem, no completo juízo, acredita que tal escola é sem partido? Ela não é, apenas está se garantindo que, agora, ela tenha um e tão somente um partido que seja, obviamente, alinhado ao setor político e civil que encabeça a dita ideia.

Sou um professor, e me orgulho em dizer que tive e tenho colegas alinhados à direita e à esquerda política, ainda que tais conceitos, no Brasil, estejam cada vez mais esvaziados de sentido, uma vez substituídos pela ignorância bárbara de um povo que opina sobretudo sem jamais ter lido antes uma vírgula sequer, e séria, sobre o assunto a que se dedicam falar. Vivemos a época do “Porque sim!”, a explicação mais sofisticada que você vai ouvir de muita gente, em muitas esquinas, quando indagadas sobre suas posições.

Vejo hoje meus professores, pessoas de quem tive o prazer da convivência e do aprendizado, pessoas que não me diziam o que pensar mas que, antes, ofereciam argumentos críticos e sempre livres para que pudéssemos realizar o próprio debate, serem acuados pela covardia de um projeto que se pretende defensor da liberdade quando é, na realidade, o primeiro elo na enorme corrente de ignorância e obscurantismo em que estão aprisionando a Nação. Meu medo? De que quando acordarmos deste sonho torpe, deste pesadelo tacanho, anacrônico, histriônico ou mesmo disfuncional, seja tarde demais para uma geração de jovens que terão sido entregues ao fanatismo, na crença de que lhes foi entregue um mundo de liberdade quando foram apenas lançados às sombras da pior das cavernas.

É triste, muito triste.

Alan.

Vloggers, informação e “pós-verdade”

Se vivemos, como já foi dito na célebre obra, “Tempos Fraturados” (Eric J. Hobsbawm), também o fazemos em relação à informação. Não raro temos observado uma crescente onda de alienação política e social travestida de informação conectada. Vloggers dão o tom do que jovens e adultos falam nas redes sociais e em conversas de botequim.

Confesso que fico um tanto assustado quando vejo o termo “pós-verdade” circulando como se fosse comum ou não tão grave. Sempre aprendi que isso era, é, e sempre será apenas uma coisa: mentira, simples assim. Talvez a pós-verdade seja o “raio gourmetizador” dos novos Pinóquios do século XXI. Seja como for, vidas são destruídas, falácias são disseminadas e o conflito é inventado na velocidade de um compartilhamento.

Não bastasse isso temos o fenômeno dos “Vloggers”, famosidades que se dedicam a postar toda sorte de comentários em vídeos produzidos para o YouTube e que angariam milhões de seguidores. Ok, não serei mais rabugento do que de costume, então é fato que alguns são interessantes, tem algum conteúdo e cumprem seu papel de entretenimento muito bem. Porém, preocupa-me que hoje muitos, especialmente jovens, traçam suas visões de mundo e sua orientação ideológica pelo que algum “engraçadão” esbraveja em algum vídeo.

Não é porque alguém fala algo com que vocẽ concorda, que ele está certo. Sim, existe uma possibilidade de que ele e vocẽ, estejam errados, inclusive eu, pense nisso. Não é porque alguém xinga e berra em algum vídeo que ele está certo ou tem alguma formação que lhe permita teorizar sobre esse ou aquele tema. E por favor, não me entendam mal, expressar suas opiniões é democrático e saudável, porém quando ela é vendida por patrocínios ou para fama pessoal isso não figura nada além de algum sofismo perdido no tempo e no espaço.

Informação significa, é rica, é embasada, possui a natureza de informar para que possamos articular novas ideias e novas visões de mundo. Assim, a informação não pode ser tratada como um espetáculo circense ou algum tipo de escracho qualquer. Ela precisa ter qualidade, ser propositiva e crítica.

Enfim, seja como for, seja o que for que você assiste na Internet, penso que vale pelo menos a pergunta: você realmente confia que o engraçadão ou o douto-erudito do outro lado da tela sabe de tudo o que está falando? Veja, não é porque eventualmente você nunca tenha ouvido falar do que ele disse, que o torna verdadeiro. A alienação também pode ser travestida de intelectualidade.

Então informe-se, leia mais e leia melhor. Vá em bons jornais, em bons livros e não cometa o erro crasso de ler apenas o que concorda contigo. Desafie-se, coloque-se à prova e leia mais, diferente e melhor, cruze informações e depois, com seus botões, pense a respeito e veja qual é a SUA OPINIÃO. Não cometa jamais o erro de deixar que pensem em seu lugar. Está na hora de assumir as rédeas de sua própria intelectualidade.

Alan Carlos Ghedini.

 

Do verde e do amarelo, restou a vergonha…

Convenhamos, Brasil, convenhamos…

Quando éramos verde e amarelo num domingo qualquer, até selfies eram tiradas com os agentes do Estado. Quando éramos verde e amarelo, aliás, jurávamos que estávamos nas ruas contra a corrupção que, de algum modo, só existiu nos últimos 14 anos, porque afinal, em todos os demais, tudo estava às mil maravilhas.

Quando éramos verde e amarelo, achávamos que caçaríamos um corrupto por semana, uma mistura de big brother, talvez um Don Quixote caçando monstros terríveis que apavoravam a Nação. Aliás, sobre esses monstros, quando éramos verde e amarelo caçamos bolcheviques, comunistas, em cada esquina, em cada canto, mesmo mais de 25 após a queda do Muro de Berlim, mais de 20 anos após fim da URSS e com um presidente dos EUA pousando pacificamente em Cuba. Mas tudo bem, de verde e amarelo não poderíamos estar errados, jamais! Pra frente, Brasil! Ame-o ou deixe-o, não é?

Mas ok, o fato é outro, o fato é que se não for verde e amarelo, a selfie não existe mais. No seu lugar, bombas, repressão, etc. Sim, há quem quebre tudo? Há! Mas se você julga que em uma multidão de milhares de pessoas é perfeitamente possível controlar o comportamento de todas, então ou você é ingênuo ou mal intencionado. E se julga o todo pela parte, beira à algum estado de alienação social.

Já sei! “Mas e o meu direito de ir e vir?”, diz você. Ir pra onde e vir de onde? Ir para um país onde se está comigo pode, se não está, não pode? Vir de onde? Da terra do Mágico de Oz, procurando a valentia do covarde leão que de nós se apossou? Complicado…

Mas de verde e amarelo sinto que vivemos, verdes de raiva contra quem não concorda conosco, que não dialoga, não ouve, verdes de raiva exercendo macartismo em pleno século XXI. E amarelo seguimos, amarelando diante da democracia, da livre expressão, do direito à manifestação, amarelos diante dos subterfúgios e sofismos daqueles que fazem do direito a espada de suas vontades e não a balança da justiça.

Sim, seguimos mais verdes do que nunca, mais amarelos do que nunca, porque afastamos a ameaça vermelha, o terrível plano Cohen, afastamos o vermelho, até que, diante de tanta violência o vermelho seja o sangue de algum inocente que incendiará a Nação e nos arrancará verdes e amarelos de nossa criminosa alienação. Que esteja eu errado, que esteja eu errado.

Éramos verde e amarelo, agora somos só o vazio, a pá de cal, a cova rasa  em que lançamos nossa imberbe democracia.

Alan Carlos Ghedini.

Quando eu amei a docência? (Uma revelação pessoal)

Quando saí de Mafra, para Curitiba, no objetivo de cursar Física na UFPR, em 1999, me imaginava num laboratório realizando alguma pesquisa mirabolante, não me via em uma sala de aula, como professor. Cheguei a trabalhar como voluntário em um projeto de pesquisa, até o dia em que numa conversa de corredor, no departamento de física da instituição, conheci aquele que seria referencial em minha vida profissional, o Prof. Dr. Hamilton Araújo Bicalho.
 
Figura quase folclórica trabalhava com Raio-X e era apaixonado pela docência. Cabelos brancos e compridos, barba igualmente branca, óculos já grossos e um sorriso típico, além de um sotaque algo mineiro. De repente via ele falar sobre ensinar, sobre estar com o estudante e trabalhar para mudar algo nele, para levá-lo a descobrir novos elementos sobre o mundo, novas discussões.
 
Lembro de uma vez em que ele parou no corredor eu e alguns amigos e nos perguntou a explicação física do porque um carro de F1 com menor quantidade de combustível andaria mais que um com maior quantidade. Tentamos uma daquelas respostas prontas, pró-forma, e ele nos corrigiu com quase meia hora de uma explicação super rica e inteligível. Aliás, aí está algo fantástico da docência: transformar o ininteligível em inteligível.
 
Bicalho, infelizmente, ainda quando estava no curso, veio a falecer, mas eu nunca esqueci a importância do que aprendi com ele, nunca esqueci o brilho com que ele se dirigia a um estudante e o quanto amava o que fazia. Nunca esqueci daquele professor que me descobriu a ser um professor e hoje confesso que ao escrever esse texto, não sem os olhos marejarem, vejo como vale à pena ouvir, apenas ouvir a alguém que realmente quer ensinar, a alguém que realmente quer significar.
 
Eis que no correr do tempo descobri meu carinho sincero pela física, porém fui tomado pelo meu amor à História, às humanidades. Uma série de desafios por vezes trouxeram grande conflito, sofrimento, mas passados esses anos, desde aquele calouro com 18 anos saindo de Mafra para Curitiba, sinceramente? Eu nada mudaria, absolutamente nada.
 
O professor que sou, minha paixão, estavam ali, mas pessoas o despertaram, seja meu querido Prof. Bicalho, sejam todos os mestres que tive na Física, na História e aqueles que conheci no fundamental e no médio. E porque todos erram, acho que a beleza é ter aprendido com os professores que adorei e com aqueles que em meu ponto de vista erraram. Ser professor é, afinal, ensinar mas antes de qualquer coisa, aprender.
 
E como aprendi, e como continuo aprendendo. Meu vício incurável? O tablado.
Prof. Alan Carlos Ghedini.

A inquisição dos apedeutas…

No momento em que a crítica e o debate plural de ideias se torna motivo de perseguições, tenho certeza de que vivemos um dos piores momentos de nossa História. Quando professores são silenciados e cores de camisetas podem levar a agressões, não resta dúvida de que vivenciamos um momento especialmente sombrio na jovem democracia brasileira.

Lembro bem de um professor, ainda na universidade, e que dizia que seja na esquerda ou na direita, há gente boa e gente ruim. E ele não poderia estar mais correto em sua afirmação. Ocorre que hoje, os ruins tomam uma dimensão maior que os bons, potencializando polarizações e escolhendo as novas bruxas do século XXI, prontas a serem queimadas na “inquisição dos apedeutas”.

Tenho amigos, professores, que tem sido perseguidos por simplesmente ministrarem, por exemplo, aulas sobre o marxismo, conteúdo regular em Sociologia e História. E são perseguidos sem jamais tomarem partido em sala, jamais. Perseguidos apenas por cumprirem o plano de ensino que lhes é confiado por diferentes sistemas de ensino. Perseguidos inclusive por seus posts particulares em redes sociais. Perdeu-se o direito à diversidade, perdeu-se o direito à liberdade. E ainda se fala, nos protestos, em democracia e luta contra a corrupção.

Mas qual corrupção? Não há alguma outra maior do que corromper a liberdade à livre expressão e debate de ideias, não pode existir corrupção maior do que romper o direito ao contraditório. Temos a educação sendo amordaçada pelo obscurantismo e pelo pensamento totalitário, de que “se não está comigo, está contra mim”. Flertamos com o pensamento unitário, acéfalo, acrítico, irracional, o pensamento dos que não pensam ou que escolheram não pensar. Fincamos as raízes do atraso no medo àqueles que se opõem às nossas convicções.

Contudo, escrevam: a História não perdoa. Seremos cobrados, ainda, e com juros pelo nosso atraso em pleno século XXI, seremos cobrados por crer que gênero é ideologia, que racismo é “coisa de esquerdista” e que a diversidade de pensamento divide uma nação quando é justamente o seu debate racional que a fortalece. Seremos cobrados por nossa alienação política que permite que professores sejam vítimas de uma inquisição suja, imunda, uma inquisição realizada pelos lacaios da corrupção. Seremos todos, indistintamente, julgados pelos falsos profetas da moralidade cuja imoralidade nos encarde com as marcas de uma Nação que se entregou ao messianismo político, o pior de todos, o mais perigoso.

Entretanto seguimos, aliás sigo, pelo menos firme na crença de que seja pelo amor ou seja pela dor, teremos de aprender a ser nação, teremos de aprender o valor da democracia e da liberdade de expressão e opinião. Poderíamos ter aprendido pelo amor, mas optamos a dor. Porém, ainda assim aprenderemos, e esta é a esperança que me move, é a esperança jovem de um coração que apesar do lancear da censura, da preguiça cognitiva, ainda teima em esperar que, de alguma forma, “apesar de você, amanhã há de ser um novo dia”.

Alan Carlos Ghedini

Leia atentamente, mas atentamente mesmo!

Tem que investigar mesmo, a tudo, mas acima disso, a TODOS, independente de partido (independente mesmo, viu?!). Se você quer que todo o Brasil – MAS TODO MESMO – seja passado a limpo, então estou contigo. Se quer que as leis sejam respeitadas por TODOS – (todos, viu? Inclusive VOCÊ!), então estamos realmente juntos.

Mas se você quer a lei apenas para aqueles que julga “inimigos” mas quer tudo, no “jeitinho” e à margem da lei, para os amigos, ou se você acha que a solução para problemas sociais diversos é meter bala, que a roupa de uma mulher explica um estupro ou que o negócio é instalar uma ditadura (porque na sua visão, “naquele tempo que era bom”), siga as seguintes instruções:

1. Clique em meu nome nesse post, para abrir a página inicial de meu perfil;
2. Na imagem de capa, em meu perfil, à direita, clique no botão amigos e selecione “Desfazer Amizade”.
3. Tchau!

Porque afinal de contas, se tem uma coisa que eu realmente não preciso, não quero e para a qual não tenho paciência é para para discursos de ódio, violência ou exceção. Pelo menos aqui, eu quero realmente bons contatos, com os quais eu possa conversar sem a impressão de que, a qualquer momento, alguém pode “avançar” sobre mim com um leão na savana.

De saco cheio, sério! Democracia, sim! Diferença de opinião, sim! Salve-se quem puder, não!

Era tudo tão óbvio…

Em pleno século XXI, a nação caça comunistas. Em plena era dos mercados integrados e das redes sociais, o país caça “pagãos” e “hereges”. Mandamos homens ao espaço, sondas romperam os limites do sistema solar e viagens são planejadas a outros planetas e, aqui, nos preocupamos com aqueles “10 mil guerrilheiros na Amazônia, financiados pela superpotência venezuelana”.

Enquanto sabemos, já há 5 séculos, que a Terra é redonda e que não é ela o centro do universo, permanecemos aqui em nossa Cocanha, torpes na certeza de que sexo é ideologia, de que lutar por direitos é coisa de “esquerdista” ou de que “tudo o que você precisa saber para não ser um idiota” é ler livros e autores, não raro, idióticos.

Segue o mundo girando em si 24 horas, em torno do Sol por 365 dias e aqui, na terra tão quente e “receptiva”, espancamos pessoas pela cor da camiseta que usam ou, não contentes, amordaçamos professores que não se comportam como meros almanaques, plenos em datas e fatos sem qualquer debate ou contextualização. Isso quando não justificamos com toda nossa apadeuta razão que as roupas de uma mulher “justificam” qualquer forma de assédio…afinal, assediar é coisa de homem e qualquer coisa fora é feminazi ou “bichinha”.

E numa bela aula de História, enquanto com os olhos brilhantes louvamos aos ideais da Revolução Francesa e aos Direitos do Homem e do Cidadão, saudamos a um incauto que defende romper a todos os direitos, levantando sobre nossos ombros não a liberdade e a inviolabilidade da vida, mas sim, aquele que defende sua tortura, torturadores e executores.

Mas tudo bem, porque afinal, tudo era óbvio…

Era óbvio que a Terra era tão chata quanto a mesa em que você lê esse post…

Era óbvio que não se deveria tocar num cadáver para fins médicos, porque afinal, tudo deveria ser puramente confiado à Graça…como se dela não pudesse vir a inteligência médica.

Era óbvio que mulheres que tinham ideias ou ousavam se levantar contra um sistema de opressão deveriam ser queimadas, pois só poderiam ser bruxas.

Era óbvio de que, se não está comigo, está contra mim ou de que se não crê no que eu creio, só pode ser louco, criminoso ou vil.

Era óbvio de que se não está travestido com as cores nacionais só pode ser algum subversivo cuja punição única é a eliminação.

Era tudo tão ridiculamente óbvio, tão certo, óbvio como o fato de que nos entregaríamos aos braços do pensamento simplista – não simples – do reducionismo, da fé cega, de um imperativo tirânico de que alguém sabe, afinal, o que obviamente queremos porque somos o Novo Mundo e não podemos estar errados.

Novos, uma vez mais, óbvios como em outros tempos, óbvios e não profundos, levianos e não fecundos, monónotos e não plurais porque atingimos enfim o momento de uma Nação que não vê na profundidade da razão, na fecundidade da criação e da pluralidade do ser, qualquer outra coisa além de uma ameaça.

Temer a crítica? Temer o debate? Temer ideias? Sem problemas, não nos resta muito mais no atual momento do que, temer…mas de alguma forma eu ainda creio, porque apesar dos ventos, tal qual o jeito da madeira, não me curvo pelo simples fato de que não o saberia, jamais, sem quebrar. Não penso porque sou, mas sou porque escolhi pensar.

Alan Carlos Ghedini

Por isso sim, eu iria à Rua!

Desde as Jornadas de Junho, em 2013, a moda é ir pra rua, mesmo que sem motivo claro ou com objetivos não exatamente coletivos. Tinha começado com R$ 0,20, pelo transporte público, e de repente a luta se perdeu numa pulverização irracional de demandas não raro individualistas que fizeram com que nada conquistássemos de real naquele momento.

Hoje, ao ler uma reportagem que dizia que dos 511 deputados da atual legislatura federal apenas 34 foram eleitos com votação própria e que os demais foram de carona com partidos e seus “puxadores de votos”, fica visível que o Congresso que escolhe nossos destinos, que aprova ou não as leis que poderíamos julgar coletivamente importantes, simplesmente não possui legitimidade. Não admira que ao votarem um impeachment, assunto da mais alta gravidade, justificaram seus votos por Deus, família, filho, sobrinho, papagaio, etc.

Vejam a imagem abaixo:

Marcha-Brasil-17-de-junio-2013-Movimiento-Pase-Libre-Brasilia-CongresoImagem do site http://revoluciontrespuntocero.com/las-calles-solo-20-centavos-dos-vinetas-desde-brasil/

Ela poderia ter sido a nossa Bastilha, porém a transformamos apenas em nosso Coliseu tupiniquim, movido à lógica do espetáculo tal qual panem et circenses, um pão e circo com direito a confete, inclusive. Fomos reduzidos à platéia de um espetáculo tragicômico quando poderíamos ter sido os protagonistas de uma mudança verdadeiramente épica.

O atual sistema político nos reduziu à condição de espectadores, e o pior é que a mudança, em si, deveria vir daqueles que transformaram o Congresso Nacional em uma comédia triste e ultrapassada a qual, todo o mundo, olha como se nós, Brasileiros, fôssemos uma turba insana, disputando migalhas de uma democracia ultrajada por maldições nacionais como patrimonialismo e clientelismo.

De alguma forma sinto que no atual momento estamos errando o alvo, de novo e feio. Ainda não percebemos porque, tradicionalmente, um congresso é chamado de “a casa do povo”, enfim, ele é a instância máxima da representação popular, mas é ao povo a quem ele simplesmente não mais representa porque sequer foi eleito pelo voto direto mas, antes, por um sombrio critério de proporcionalidade. Nas tantas brechas da lei nossa democracia foi corrompida. Não lutam mais por nós – não se engane! – mas por poder.

Então, cidadão, por isso eu iria para a Rua e se duvidar só sairia de lá quando algo de concreto mudasse na casa onde verdadeiramente os destinos do povo, em seu nome, são teoricamente decididos. O mundo ri de nossa nação pelo espetáculo circense domingos atrás e não raro rimos de nós próprios, afinal, se formos pensar friamente estaríamos sim chorando apavorados ao ver o republicanismo e a democracia tão criminosamente ultrajados.

Mas apesar dos pesares, e são muitos, ainda acredito, ainda tenho a esperança desta verdadeira caixa de Pandora, a esperança de que um dia possamos sair do atual torpor e perceber a importância do parágrafo único, do art. 1º da Constituição Nacional, que diz “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Logo se o poder emana do povo, já passou da hora de, nas ruas, fazermos ouvir bem alto aos ouvidos confortavelmente distantes, de nossos caros congressistas.

Alan Carlos Ghedini.